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Um homem normal (continuação)

As luzes estroboscópicas quase o cegaram, tal era a intensidade do aparato luminoso do sítio. Após o branco inicial, começou a distinguir os contornos do espaço. Havia muita gente, muitos corpos apinhados, com muito pouca roupa. A casa era realmente bem frequentada! Na pista bamboleavam jovens de aspecto felino, cabelos cuidadosamente penteados, alisados à força de ferros estilizadores e o último grito em produtos de estética capilar. Tinham todo o ar de modelos, manequins… ou prostitutas de luxo. Tanto lhe fazia, ia dar ao mesmo. De qualquer maneira, aquelas gatinhas esquálidas não lhe diziam muito. Quer dizer, não se importava de levar uma delas para casa, para provar, pelo menos uma vez na vida, aquela (pouca) carne de marca, aquelas pernas compridas e aqueles pescoços de gazela. Mas não. Aquele tipo de mulher não lhe inspirava confiança. Guiado pelo sabedor amigo, que o conduzia aconchegado debaixo do seu braço musculado, foi-se aproximando do bar. O monólito de aço inoxidável e vi...
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Dias assim 

Dias assim

Vi o rubro das papoilas, pixelizadas pelo amor dos teus dedos. Há pouco, olhei-me no espelho e encontrei-me. A seguir, encontrei o que julgava perdido. A atenção, os meus amigos, as cores nas ruas, o sol na janela, a profundidade de outros olhos. Já me julgava perdida no espelho! Enquanto o café fumega na chávena familiar, percorro as linhas da tua voz e leio-te no corpo plano, no plasma que nos separa. Admirável ventura, este cabo coaxial, esta fibra óptica, que te traz até mim e te entranha nas minhas fibras, na minha roupa, no meu músculo, no suor da minha carne, na leveza da minha alma. E sinto paz. Há tanto por fazer, tanto por estudar, o pó para limpar, a roupa por arrumar. Eu vou fazê-lo. Com calma. Já não tenho de prestar provas nem mostrar que sou melhor. Vais limpando, devagar, a minha vontade de vingança, a minha dor, o meu mal-estar. E eu vou arrumando as recordações. Devagar.
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Don´t wanna love you, just wanna fuck you 

Don't wanna love you, just wanna fuck you

Regresso a casa tarde. Já se vai tornando um mau hábito. A roupa suja transborda no cesto e espera que eu a coloque na máquina. A casa-de-banho precisa urgentemente de uma limpeza. Estou cansada. Observo o meu reflexo, os dois círculos roxos debaixo dos meus olhos. Quem me dera que eles estivessem aqui, a vincar o meu rosto, devido ao excesso de trabalho ou ao esmero doméstico. Mas não. As minhas olheiras são o mapa das tardes que passo a foder contigo. Esta sombra escura na minha pele conta as histórias do teu corpo sobre o meu, da clandestinidade das fodas que me dás. Há dias em que só me apetece ficar aí contigo, esquecer que o meu marido me espera, acostumado a que a minha presença surja, o mais tardar às 21 horas. Há tardes em que me dizes que queres mais, em que vemos o sol esconder-se atrás das colinas da cidade e, na ânsia de não nos perdermos, encontramo-nos mais uma vez. Por vezes cruzo-me com a tua mulher, no caminho para casa. Olho-a, sou uma desconhecida. Reconheço-a das p...

Os homens que amei

Os homens que amei… Seres meigos e frágeis Olhos húmidos Corpos de calor Em mim Homens de música Almas da arte Mãos minhas Manhãs de sol Chuva, silêncio, o caos do trânsito Um beijo roubado antes do fim.

Um homem do tempo

A minha primeira reacção quando ouvi o nome "Ratzinger" ecoar pelo aparelho televisivo foi de uma tremenda desilusão. Esperava tudo, menos o óbvio. Não sendo crente, a eleição de Bento XVI não me afecta particularmente. Interessa-me sim saber quem é (porque quem foi, como Cardeal, é já sobejamente comentado) este homem. Tive a oportunidade de ver uma entrevista do (ainda) Cardeal Ratzinger e fiquei impressionada com o discurso calmo deste homem. Tocou-me a sua profunda inteligência e clareza. Do que lhe falta de emoção (e não penso que lha falte.Apenas um pouco de entusiasmo físico), sobra-lhe de clarividência. É um intelectual da Igreja, um pensador, alguém que compreende a dimensão complexa das questões que perpassam os tempos de hoje. Reti na memória uma frase em particular, que revela um humanismo tocante, uma profunda consciência do Mundo enquanto mundo dos homens. "O Homem pertence à temporalidade"
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Benedictvs XVI 

O Modo de Entender o Sofrimento

Porque hoje é Domingo e o primeiro dia depois da morte de João Paulo II, apresento aqui excertos de dois textos (um académico, outro jornalístico) que reflectem sobre a forma como a Igreja Católica trata as questões da dor, do sacrifício e da morte. Os momentos que antecederam a morte de Katol Wojtila, altamente mediatizados, adquiriram um carácter quase canibalista, de excitação quase doentia na contagem dos segundos até ao suspiro final. Numa altura em que se discutem questões prementes como a dignidade do doente e a eutanásia,é importante reflectirmos sobre a desnecessária glorificação do sacrifício e da dor. "(...) o Cristianismo trouxe para a comunidade humana uma nova ordem temporal à qual o apocalipse e o escatológico pertenciam como condição de redenção para o 'outro mundo'. Como viver então num tempo que prega, ao mesmo tempo, o Reino de Deus e o fim da história, neste anúncio imanente do fim do tempo? Como viver no medo do desaparecimento de tudo? Neste clima exa...
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Adeus, Karol 

Morreu o Papa Peregrino

Karol Jozef Wojtyla 1920 - 2005 Se a História da Humanidade fosse escrita apenas numa página, o nome de João Paulo II constaria nos parágrafos iniciais. Durante o seu Pontificado, que durou 26 anos, João Paulo II teve um papel social e político crucial em mudanças mundiais tão importantes como o final da Guerra Fria, a Queda do Muro de Berlim e a oposição à guerra no Iraque. O seu trabalho para a paz e diálogo entre os povos não deixou ninguém indiferente à sua caminhada, mesmo os não-crentes. João Paulo II, conservador em muitas das posições da Instituição da qual era chefe, foi o Papa da globalização, um verdadeiro político, que levou a força da palavra, a tenacidade da liberdade aos quatro cantos do planeta. Foi o Papa da globalização, da era mediática. Foi o único Papa que a minha geração conheceu.
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aaaah... homens... 

Fascinação

Os homens fascinam-me. É verdade. E penso que isto não tem apenas a ver com o facto de eu ser mulher / heterossexual / não-frígida. Há algo que me impressiona profundamente nas relações masculinas, algo que me toca quando observo um grupo de homens em convívio. Sinto inveja da forma atabalhoada, mas diplomática como os machos estruturam as suas amizades. As palmadas nas costas, a sua forma "carinhosa" de falar sobre nós (fêmeas). Com o meu historial, por esta altura, deveria odiar toda a raça masculina, todos os seus exemplares existentes à face da terra. Mas não consigo! Se dissesse que os odiava, estaria a ser hipócrita. Tal como a maioria dos homens, eu também adoro descansar o meu olhar em rapazinhos (e homenzinhos) bem torneados, com olhares profundos e interessantes... Não consigo odiar os homens... porque os adoro! Adoro a forma desarranjada e infantil como convivem . Adoro as conversas que têm, a forma como conseguem viver e conviver à base de assuntos que para nós, ...

Aos meus amigos

22 anos. Apercebo-me que, mais do que celebrações, presentes (apesar de gostar muito... ihihi...), o que importa neste momento é agradecer a quem me acompanhou neste último ano, particularmente difícil. Quero tornar público o meu amor, carinho e amizade por aquelas pessoas que me acompanham com a sua sabedoria, alegria, companheirismo, loucura, solidariedade, inteligência. Vocês são únicos. Obrigada. Ana Raquel Teixeira (Teixeirinha): pela sensatez, pela calma, por me fazer ver o mundo de outra perspectiva. Pelos momentos de tolice, os dias (e noites) no Fura. A minha companheira na nobra arte de apreciação do sexo masculino (Upa! Upa!) Inês Correia: A minha piolha, paciente ouvinte das minhas descaragas de raiva, acessos de fúria e emoções descontroladas. Mereces um prémio pela paciência! Grandes conversas de Domingo à noite! Eduardo: Companheiro de lutas, ilusões e desilusões. Estiveste sempre lá, no melhor e no pior. O homem que, um dia, me entendeu. Agradeço a tua compreensão, o...
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A crise abre uma janela para a nossa alma 

A Crise

"Depois de uma crise seremos transformados para sempre" Porque hoje é Domingo, aqui fica um excerto da Revista XIS, relacionado com o tema "Crises de Crescimento". Todos somos marcados por elas, mesmo que não nos apercebamos do traço de mudança que elas deixam na nossa vida. Para reflectir. Quanto mais ignoramos as crises, mais os problemas se avolumam. Assumi-las é uma regra de ouro que previne o sofrimento e desenvolve a coragem necessária para olharmos para dentro de nós, encarando de frente os problemas. Não temos culpa que as crises rebentem, mas devemos ter consciência que, de alguma forma, podemos ter contribuído para a sua construção. Scott Peck, autor do célebre livro "O Caminho Menos Percorrido", afirma que devemos absolutamente responsabilizar-nos pela pessoa que somos, em todas as áreas da nossa vida. Fugir a estas responsabilidades significa, por exemplo, escamotear situações que nos desagradam e que pretendemos não ver, "empurrando-as...
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Um homem normal 
Um homem normal Ele não era um homem de excessos. Bebia o seu copo de vez em quando, fumava um charro com os amigos, aos fins-de-semana. Jogava no Euro Milhões. O emprego pagava bem, não tinha razões de queixa. As prestações do carro estavam em ordem, as da casa também. A vida corria. A mulher não lhe dava problemas. Bonita, sem ser espampanante, engraçada, mas não demasiado inteligente (as mulheres inteligentes davam-lhe dores de cabeça). Estavam a pensar ter o primeiro filho. Ela andava entusiasmada com papel de parede com ursinhos, babetes e biberões, ele com a satisfação de formar a sua prole. Às Sextas fodiam. A mulher não o excitava demasiado, dava-lhe tesão suficiente para levar a cabo o acto. Era meiga, carinhosa. Iria dar uma excelente mãe. Às Sextas, “faziam amor”. Legítima e legalmente. Perante Deus, o Estado e aqueles horrorosos candeeiros que ela insistira em comprar. Era Sexta-feira. Encontraram-se com os amigos. Três casais, entrando nos trinta. O grupo do costume, no b...
Doce melancolia da paixão Doce amor reencontrado Cálida luz, suave dor Calmaria... o vento nas nuvens, nos cabelos, nos teus cabelos. O silêncio dos ruídos da cidade, os espelhos nos olhos dos estranhos As ruas... ruas... ruas... Sorrimos. Assumimos sem vergonha estarmos vivos.
"Espero que todos tenham aprendido a lição a bem da Democracia e de Portugal" José Sócrates