O Modo de Entender o Sofrimento

Porque hoje é Domingo e o primeiro dia depois da morte de João Paulo II, apresento aqui excertos de dois textos (um académico, outro jornalístico) que reflectem sobre a forma como a Igreja Católica trata as questões da dor, do sacrifício e da morte. Os momentos que antecederam a morte de Katol Wojtila, altamente mediatizados, adquiriram um carácter quase canibalista, de excitação quase doentia na contagem dos segundos até ao suspiro final.
Numa altura em que se discutem questões prementes como a dignidade do doente e a eutanásia,é importante reflectirmos sobre a desnecessária glorificação do sacrifício e da dor.
"(...) o Cristianismo trouxe para a comunidade humana uma nova ordem temporal à qual o apocalipse e o escatológico pertenciam como condição de redenção para o 'outro mundo'. Como viver então num tempo que prega, ao mesmo tempo, o Reino de Deus e o fim da história, neste anúncio imanente do fim do tempo? Como viver no medo do desaparecimento de tudo? Neste clima exaltado que se amplificará nos séculos seguintes [à implementação do Cristianismo], dando origem aos movimentos milenaristas, tiveram nascimento comportamentos excessivos e irracionais, tais como a vocação ao martírio, a obsessão da virgindade e da ascese, a fuga para os desertos, tendo todos, como traço essencial, o de ser uma recusa radical deste mundo destinado a desaparecer um dia, única resposta possível à angústia de um mundo que lia em si mesmo os signos da própria agonia."
in "Breve história do corpo e dos seus monstros", Ieda Tucherman
"Ao longo destas últimas semanas, o Papa foi sujeito a uma sobreexposição do seu próprio sofrimento. Foram passados, por vezes, os limites do pudor e da elegância. Mais grave do que isso, foram passados os limites da doutrina bíblica, sempre que o seu sofrimento foi indevidamente assimilado ao de Cristo (...).
A verdade é que o próprio João Paulo II não é alheio a esta linha de pensamento, que nos toca pela porta. O seu pontificado é responsável pela revalorização dos aspectos mais datados ( e mais doentios) do catolicismo popular fatimista, como a "conversão da Rússia"e a noção do sacrifício reparador. No cristianismo bíblico, só o sacrifício de Cristo é necessário, suficiente e definitivo. Não temos de competir com Ele. (...)
Em oposição a isto, há entre nós uma religiosidade dolorista, muito antiga, com raízes que vão até aos cultos de sacrifícios humanos, e que foi infelizmente recuperada pelo próprio Magistério da Igreja Católica Romana."
in " Sobre o 'servo sofredor' ", Silas Oliveira
Jornal de Notícias, 3/04/2005

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