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Lisboa efervescente

Lisboa efervescente, Lisboa fervilhante, Lisboa quente de corpos e do Sol. Este calor de Maio, estes fins de tarde que transformam a cidade num mundo de penumbra e luz, estas noites, onde vagueio, o cheiro do rio. Tudo convida ao amor, tudo pede sexo. As ruas abrem-se para os amantes, escondem-nos e protegem-nos dos olhares furtivos. E eu, fria nesta vaga amena do Estio, olho e sofro. O teu corpo ao meu lado, a tua pele, os lábios que eu queria, tudo o que nunca foi meu. Sei que o Sol te vai tisnar, sei que te tornarás ainda mais belo. E o Verão vai tornar-te apetecível e maduro, como um fruto, sumarento e delicioso. E eu só quero estar longe da tua carne, quero fugir. Quero fugir da Lisboa que me prende e me dilacera. A Lisboa onde tu a tens, onde me tiveste. Nos Invernos da minha vida fui amada, intensamente, entre cobertores e entre quatro paredes. O meu corpo não é coisa que se mostre, é para ser tida no silêncio da vergonha. Corpo de Madalena, ajoelhada aos pés do homem. Dos homen...

De volta

Estou de volta. De volta à minha escrita egocêntrica, que não diz absolutamente nada. Esperando desesperadamente que alguém leia. Ou esperando que ninguém leia.

Esta noite

“Esta noite vou ser pássaro / vou voar todo o teu corpo / minhas asas são de aço / tua pele de ferro e fogo / por isso... vem...” Pedro Abrunhosa “Noite na Noite” Procurei-te no sítio do costume. Estavas igual, igual em todos estes nossos encontros. Mal entrei naquele buraco empestado de fumo, suor e vozes abafadas pelo matraquear mecânico dos sons da moda, senti o teu cheiro animal. Essa tua essência que te distingue, esse teu perfume de fêmea, sempre no cio. Cumprimento-te com um beijo tímido na face. Ris-te e olhas-me de forma irónica. Agarras o meu rosto nas tuas mãos e mordes os meus lábios. Solto-me de ti e olho em redor, embaraçado. Reparas no meu desconforto e voltas a sentar-te no tamborete, voltando todo o teu corpo para o vazio das luzes intermitentes. - Parece que já não gostas... – dizes num tom infantil, que contrasta tanto com a tua pose de mulher fatal, o que me faz sorrir. Sento-me com dificuldade no pequeno banco ao teu lado. Enlaço a tua cintura fina e puxo-te para ...

Niklos Feher

Morreu Niklos Fehér. Como voltar à realidade quando a televisão nos oferece a morte em directo? Fehér prostrado no verde do estádio. O “Público” mostra uma foto do jogador, caído sobre o relvado, olhos entreabertos, vazios. A imagem é de uma beleza assustadora. Um homem cheio de vida que cai, um corpo no seu auge. O atleta entrega-se à sua arte, morre por ela. Nos instantes que sucederam o colapso, o corpo de Fehér agita-se quase imperceptivelmente. A sua alma abandona-o. Em Guimarães, a chuva fustiga os céus, a água confunde-se com as lágrimas daqueles que presenciam a queda de um anjo. Os homens também choram, o jogo de homens termina com um grito surdo de dor, de choque, de pânico. Num segundo plano, a massa anónima manifesta-se. Alguns em silêncio, outros gritando o nome do húngaro... “Fehér!Fehér!”. A massa tem esperança, o povo acredita na ressurreição, acredita que um fôlego de vida entrará pelas narinas de Fehér, devolvendo-o ao estádio, ao futebol, a este país onde um estrange...

IV

“Com pedaços de mim eu monto um ser atónito” Manoel de Barros Quatro anos volvidos, fecha-se um ciclo. Termina uma experiência no exacto ponto de onde partiu. Volto a sentir o amor utópico por um homem-ideal. Não um homem idealizado, perfeito, mas sim aquele que simboliza uma crença, uma fé. Estranha tendência esta para procurar reencarnações de D. Sebastião... Viveria com eles para sempre. Seria sua amante, escondida em quartos de hotel e resguardada em vãos de escada... se quisessem. Anular-me-ia por eles, tornar-me-ia a mulher - adorno que tanto procuram, seria perfeita! O tempo, o espaço, a temperatura e as circunstâncias não me permitiram sentir por eles mais que um desejo platónico, um amor vestido de ideais e lutas. Amei-os mais do que a todos os outros por causa daquilo que eles representam. Por causa da sua fé, da sua visão, do seu labor, da sua diligência incansável. Vejo-os como heróis. Para mim são mitos. Penso que os assusto. Ou provavelmente sou-lhes indiferente. Talvez m...

III

“Aumente o tamanho do seu sexo.” Ter um orgasmo é das sensações mais estranhas que um ser humano pode experienciar. Penso que uma pessoa não está verdadeiramente completa até ter acesso a esta bizarra contracção de músculos. Mesmo que se atinja o orgasmo a sós, o resultado físico é igualmente fascinante (estou aqui a descurar, como é óbvio, toda a dimensão psicológica dos sentimentos). Um orgasmo é inclassificável pela negativa: nunca ouvirão ninguém dizer que se veio e não gostou, que teve um orgasmo medíocre, ou um meio orgasmo. Um orgasmo é um acontecimento, um facto. Vale por si próprio. A questão da humidade inerente ao órgão sexual no momento da explosão é muito importante. Por vezes, um orgasmo um pouco menos húmido resulta numa experiência bastante mais ardente, ao passo que...

II

"Objects in mirror are closer than they appear" Não existem problemas, só existem soluções... Dá-me um pouco mais, quero um pouco mais. Um pouco mais dessa solução, desse antídoto. Queria beber esse antídoto. Nada dói mais que me descobrir a mim próprio Que disfarçar, fingir que não sei que sou eu. Quando, de facto, na verdade (é verdade!), sou mesmo eu. Os ciclos destes dias fecham-se em si mesmos. É uma entropia que já conheço, Uma força que desprezo, É a minha mão que teima em fugir. É o meu pequeno caos. Contempla a magia do caos! Fujo da magia do caos, mergulho nela, Vejo-me emergir ensopada de lodo e de ódio... O espelho reflecte carnes vazias de sentido. Reflicto-me, vazia de mim, cheia de tudo. Quero o sangue que se me esvaiu quando nasci.

I

« ‘Stop searching. Start finding.’ » Pedro Paixão Por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Por detrás de uma grande mulher está sempre outra mulher. Não tão grande, não tão bela, não tão apelativa. Outra mulher. Ser essa outra mulher é ser a menos bela, a menos apelativa. A outra mulher é o apoio da mulher bela, é uma espécie de dama de companhia. Acontece que, por vezes, a mulher bela até admira e inveja a outra mulher, mas relega-a para segundo plano quando exibe as suas penas coloridas de fêmea no cio. E a ciência evolutiva já provou que o macho escolher sempre o espécime mais apetecível, a leoa mais possante, a gata mais dengosa, a serpente mais hipnotizante. Haverá homens que, no seu íntimo, preferirão a outra mulher. Mas esses são os homens que não têm medo de se apaixonar, que querem algo mais que um adorno, um autómato de cabeleira que concorde com tudo o que disserem, quer lhes sirva cervejas e lhes abra as pernas. Por isso é que os homens (bem) casados esc...

Intro

“Citar é estilhaçar o todo” Mª Augusta Babo Possuía a plena noção que, mesmo escrevendo sobre outrem fictício, estaria a citar algo da minha vida. Criação por semelhança ou por oposição. Portanto, não faz qualquer sentido fugir à verdade ( se é que ela existe) . Recrio a partir da minha vida para fugir dela. Recriando, crio uma nova vida. Uma vida real que é melhor, pior, mas indubitavelmente desigual daquela que narro, que espalho. Na verdade, o eu destas páginas é um outro, um outro alguém que se cruzará comigo, em dada altura. No início (agora mesmo, quem sabe), no clímax ou no desenlace. Não quero com isto prometer uma “história”, um conto com linhas de água convergentes: a escrita vem a mim em vómitos descontínuos, e não como uma torrente fluida de sangue. Há sempre uma tentativa de esconder a expressão desagradável do que é realmente por trás de termos rebuscados, de metáforas inúteis. Esta não é a hora para tais artifícios. Mentiras, já as há em abundância deste lado. Do lado de...

Um Amor Possivel

A rapariga conhece o rapaz numa discoteca. Dançam, bebem, acabam na cama de um deles. De manhã, ela acorda e repara naquele que está a seu lado. “Este bem que podia ser o tal !” Mas, o pragmatismo urbano vence a ilusão. Veste-se sem fazer ruído e volta ao seu mundo. Estranha realidade esta, em que permitimos de bom grado que um estranho invada o nosso corpo, mas repudiamos que faça o mesmo à nossa alma! De que temos medo? Medo de perder o controlo, de perder a razão. Medo de não ser capaz de lidar com as crises que surgem. Medo da rotina. Da infidelidade. Da fidelidade. Das doenças venéreas. Da realidade. Adoro construir um mundo irreal, uma relação de sonho, onde tudo se desenrola na perfeição. Não há discussões, ele não tem borbulhas, não é mais baixo que eu. É inteligente e compreende os meus ideais. Ele é eu. Procuramo-nos nas outras pessoas, porque ainda não nos encontrámos. Vivo no pânico de ver o espelho, porque diariamente apenas o olho.

O meu blogue

Este é o meu blogue. Egocêntrico, apenas relacionado com aquilo que eu penso, que eu quero. Os meus gostos pessoais, as minhas manias, eu, eu, eu. Afinal, não é para isso que sempre serviu a escrita? Para servir de suporte ao egocentrismo?