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Dor

São duas da manhã. Agora sei, de certeza, que não vais voltar. Estou deitada, na penumbra do quarto. O telemóvel, esse pequeno paralelepípedo que me conecta ao mundo, jaz na mesinha, silencioso, quieto. Aguardo aquela resposta que nunca chegará, o golpe de asa, o momento crucial, que transformaria esta estória sem história numa narração elíptica, sem fim. O meu corpo arde, febril, quero respirar, mas esta dor lancinante paralisa-me os músculos. Tudo me dói, desde a cartilagem da garganta até às articulações dos tornozelos. As lágrimas escorrem-me pelo rosto, sem que seja necessário urdir um queixume, um gemido. Apetece-me gritar mas, se o fizesse, pareceria demasiado cinematográfico. Pouco real. Como esta é a vida que todos temos, limito-me a ficar enroscada nos lençóis, transida de raiva, como um animal ferido.A história é muito simples. Tu tens outra pessoa e eu entrei, furtivamente, na tua vida. Mais, uma vez, deixei-me apanhar neste grande erro, na grande ilusão que é achar que, à ...

Já não sou quem era

Já não sou quem era. Já nem sei quem sou. Nada me emociona, nada me comove, nada me move. Só o trabalho me faz respirar com vontade e seguir em frente. Detesto tudo à minha volta, tudo me desinteressa e aborrece. Ninguém me atura nem eu me sinto capaz de aturar quem quer que seja. Desprezo a felicidade dos que me rodeiam por não ser aquela que ambiciono. O que é isso da felicidade? Que sei eu sobre isso? Diz-se que é na infância que somos realmente felizes. Não me parece. Dessa altura só tenho recordações difusas, normais. Desde que me lembro de existir que sinto este peso e angústia permanentes, que me sufocam o peito e me amargam o estômago. Sou cínica perante o amor, especialmente quando o recebo. Cheguei a tal ponto de descrença que já nem os homens me entusiasmam. Nenhum. Antes, bastava um olhar, um elogio, para se reacender um lastro de esperança, uma chama de desejo, um encantamento instantâneo (Sou tão fácil! Era...). Agora, nem isso. À primeira palavra doce, fujo. Fisicamente,...

Eles dizem que vão!! Ai dizem, dizem!

- " Eles disseram ontem, no telejornal, que vai aumentar os impostos! Anda aqui um gajo a trabalhar para encher o cú a esses gajos ! Eles é que sabem! Depois é só Mercedes, BM's e gajas boas... Eles é que se enchem de guito e um gajo aqui, a dar o litro!" - " Eles vão mandar tropas para o Iraque e depois nós é que nos lixamos..." - " Eles querem é mama, pensas que eu não sei? Eu já conheço os gajos !" Soa familiar? Pois... Para o comum português (ok, não será o português, figura abstracta. É mesmo o TUGA), coabita entre nós, comuns mortais, uma entidade, um supra-sumo invisível mas omnipresente, que existe apenas para lixar a vida ao Zézinho. São "eles" ou, numa versão mais radical, "os gajos". "Eles" são os que cobram impostos, os patrões, os políticos, os administradores das empresas, os pretos, os paneleiros, as lésbicas, as mulheres independentes, o dono do café da esquina, o vendedor de pipocas, o cangalheiro, ...

Não sei...

Quero foder-te! Não, não é isso... Quero apenas que me abraces, como fizeste hoje, que me acaricies o cabelo e faças os teus dedos dançarem no pescoço. Quero que deixes a tua namorada, já! Não, não quero nada disso... Quero ser, apenas, tua amante. Quero-te clandestinamente, roubar-te beijos numa esquina, fazer amor à pressa, suado, sexo simples. Quero que percas o tempo suficiente para me amar. Não, não! Tenho medo da intimidade, tenho medo de ti, não me quero apaixonar. Quero que me puxes pelos cabelos e que me beijes as pálpebras. Que sejas um touro e um beija-flor. Quero que me tatues o corpo de nódoas negras, que me enchas a casa de flores. Quero um anel e não quero nada. Não quero mais nada, se não puder ter tudo.

Abraço

"Bo seiva Invadi-m nha korasom sem limit Ai si um pudéss, Bibé um káliss d'bo melodia!" "Regasu", Mayra Andrade Quando me abraçou, tudo se tornou claro. Tudo se encaminhou, irremediavelmente, para um doce caos. Quando me abraçou, um rio morno correu dentro de mim e a minha pele abriu-se de par em par. Impregnou-me da nuvem evanescente do seu cheiro, senti o vigor dos seus braços e, naqueles breves instantes, fui feliz.
"Há 150 mil anos o mundo vivia em plena Idade do Gelo e havia centenas de mamutes lãzudos" Sempre tive um carinho especial por mamutes. É isso e homens fiéis.

Os olhos do meu amor

Os olhos do meu amor São pedaços de coral São sal, sol, são estrelas Pedacinhos de luar Os olhos do meu amor São flores de jasmim Frescura bela e eterna Oceanos sem fim No teu corpo, meu amado Junto ao teu coração Perto da tua boca, rosa Água, mel, uma canção

Carta de Intenções

Eu acredito no amor. Na paixão. No sexo com amor. Eu acredito no respeito, no entendimento. Eu acredito que é possível. Eu acredito que amanhã vai ser melhor. Eu acredito que tudo vai mudar.

Aleluia,irmão!

Finalmente, um homem iluminado! "Uma mulher com atitude é um perigo" Ricardo Trêpa, in Grazia

Ítaca

O mito diz que Ulisses navegou durante dez anos no Mediterrâneo, enfrentando inúmeras provações e perigos, apenas para poder voltar, finalmente, a Ítaca. E a Penélope. Ítaca é o destino final, mas é também o lugar do eterno retorno. Aquele limbo, mágico e perturbador, onde retornamos, irremediavelmente. Se a vida de uns é uma Odisseia (onde tudo começa, se desenvolve e termina), a de outros é uma Ilíada (uma história onde os acontecimentos se precipitam em espiral). Ilíada, então. Regresso a Ítaca. Nunca cá estive, mas tenho a estranha sensação de já me ter encontrado aqui. O céu abre-se, furioso, desabando em bátegas de água. Fujo do mar, ouço-o rugir, cada vez mais imperceptivelmente. O mar fica para trás. Refugio-me em Ítaca, sempre nova, com um travo amargo de destino. Tudo é branco, alvo, níveo. Madeira e chuva. Beija-me. Não perde tempo (não há tempo a perder). Tudo é previsível. Só não esperava estes lábios invulgarmente macios e carnudos (dois morangos maduros na minha frágil b...

Realidade

...Depois aparece um trintão simpático para nos dar a volta ao sistema. O que vale é que a areia é só uma ilusão e Lisboa surge, novamente, no horizonte. Crua, metálica e real.Como sempre.

Sabedoria

"O vosso problema é que vocês fumam pouco e bebem pouco. Isso ainda vai dar cabo de vocês" (Retirado de uma conversa de circunstância com uma grande sábia do séc. XXI)

Açúcar Mascavado

“She’s a maneater, make you work hard, make you spend hard, make you want all, of her love” “Maneater” Nelly Furtado - Já te vais embora? Não vás, volta para aqui! – diz ele, o corpo refastelado, perdido no meio do caos dos lençóis brancos, o rosto apoiado na palma da mão direita, os olhos brilhantes e ensonados. - Tem que ser. Tenho de ir. - Não vás… Quero foder-te, só mais uma vez...

Universo

Adorava olhar para aqueles desenhos computadorizados do Universo. Em duas páginas A3 cabia o espaço ilimitado, toda a dimensão absurda do cosmos, tudo. E eu imaginava-me numa daqueles pontinhos brilhantes e redondos, naquela nublosa difusa, a Via Láctea, um grãozinho insignificante na vastidão do grande Nada. E era tranquilizador, porque o Nada cabia na mesa, conseguia segurá-lo nas minhas mãos, facilmente o arrumava na prateleira e, quando quisesse, ele estaria ali, ao meu dispor, sempre igual, para o contemplar.

Eles... e eu

“ (…) Despeço-me do que mais quero, só para não te ouvir dizer que as coisas vão mudar amanhã” Susana Félix, “Flutuo” Eles … e eu. Enfiada, voluntariamente, a um canto. Se me considero diferente? Sim, sou arrogante e presunçosa o suficiente para isso! Se calhar, não sou assim tão diferente. Se calhar, também quero o que eles têm (e eu não). Quero o namorado, ali, certinho, garantido. Giro, mas não demasiado. Que me ofereça flores, que diga que sou bonita e me fite com olhos de carneiro mal morto. Quero o carro, as calças Levi’s (38, no máximo… queria tanto ser uma miúda normal!), as mamas maiores, o rabo mais pequeno. Os fins-de-semana românticos (turismo rural no Alentejo ou no Gerês, muito in !), dormir aconchegadinhos durante a semana (sexo moderado, porque no dia seguinte há trabalho), conversar sobre tudo e sobre nada, passear no shopping , ir para casa às duas da manhã, menear reprovadoramente a cabeça perante solteironas insaciáveis… Eu quero isso tudo… porque não o tenho. É tu...

Quote fo the Day

É agradavelmente surpreedente como, de um livro merdoso ("17 casamentos e um namorado"; Darcy Cosper - uma má história e uma ainda pior tradução), se consegue extrair uma citação fabulosa: " O termo que designa um homem que tem uma mulher adúltera é cornudo . O termo que designa uma mulher com um marido adúltero é esposa "

Dança Comigo

Entra na minha dança. Dança comigo, agarra-me, não me deixes ir, não me deixes aqui sozinha! Pareço-te forte, perspicaz, diferente? É tudo mentira! Não me deixes sozinha... Não aprendi a estar só mas, pensando bem, não suporto a ideia de me partilhar, rotineiramente, com outro alguém. Só assim, episodicamente, durante um período de tempo suficientemente atípico e demarcado, passível de recordação firme, frame a frame. Fotograma a fotograma, eis! Quando é que me viciei nestes anjos tisnados de sol? Não sei. Este, que aqui dorme, silencioso, é diferente? Não. Minutos mais tarde, irá levantar-se, beijar-me na testa e partir. Nada de novo mas, ainda assim, agonizo com o já familiar sufoco no peito. Sensação de perda, carência afectiva, erro continuado. Isso tudo e mais um par de botas. Que se lixe! Porque nada, nada, nada, nada se compara àqueles instantes em que mergulho, bem fundo, nos seus olhos (verde, avelã, há também um vestígio de ciano sujo) e, depois de os ter envolvido, suavement...

Vazio

Só acreditei na inspiração quando a perdi...

Cenas de um casamento

“Há uma festa linda a acontecer no mundo e nós não fomos convidados” excerto da peça “Submarino” Devido a um voyeurismo nem sempre bem disfarçado, costumo demorar-me em frente da montra de uma loja de fotografia. Não para admirar a qualidade dos trabalhos (composições demasiado folclóricas e conservadoras, pirosadas visuais), mas sim para saber como vão as vidas cá da terra. Quem casou, quem teve filhos, quem se licenciou… todas estas informações estão escarrapachadas nas várias molduras que compõem a vitrina do estabelecimento (o mais afamado da cidade). Mesmo com o advento das câmaras e telemóveis digitais, a minha gente continua a fazer questão de “olhar para o passarinho”, seja para registar o casamento para a posteridade, seja para fazer uma sessãozinha com o rebento de 2 meses (mesmo que não se consiga melhor do que imagens de um chorão baboso, mordendo os mais variados brinquedos). A montra é o verdadeiro reflexo do status quo local. Embora se realizem dezenas de sessões fotog...

Brownie de chocolate com gelado de baunilha

Aí vem ele… doce tentação A sala estava meia vazia. O chão, cor de ébano, contrastava com o branco cosmopolita das paredes, da luz tersa dos candeeiros, do vidro que me separava da cidade. O prato, alvo, produzia reflexos multicolores, à medida que avançava pela sala adentro. As linhas rectas combinavam harmoniosamente com os cantos arredondados. Anguloso e curvilíneo. Aparentemente, era demasiado grande para receber o conteúdo, mas depressa me apercebi que o espaço tinha sido concebido na proporção ideal para dispor todos os elementos… Cheguei cedo, como sempre. Entrei assim que abriram as portas e esperei. A noite estava fresca, quase fria, soprava um vento desagradável, o que tornava as ruas íngremes e escuras ainda mais inóspitas. Ali estava-se bem. A música ronronava, sininhos, soluços de sintetizador, baterias computorizadas, versos repetitivos. Uma esfera revestida de espelhos baloiçava, enforcada no tecto esbranquiçado, e produzia inúmeros reflexos no chão. Se o fixasse atentam...